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Sertanejo Universitário: Música, Alienação ou Engenharia de Investimentos do Agronegócio?

Henrique Reis
Publicado em 29 de setembro de 2025• Atualizado em 29 de setembro de 20254 min de leitura
Sertanejo Universitário: Música, Alienação ou Engenharia de Investimentos do Agronegócio?
O entretenimento é a extensão do trabalho sob o capitalismo tardio.
Adorno e Horkheimer
O sertanejo universitário é hoje o gênero mais ouvido no Brasil, superando o funk e o pagode em plataformas digitais.
Mas por trás das letras sobre festas, relacionamentos e ostentação, há um projeto econômico estruturado: o gênero é, em grande medida, um braço cultural do agronegócio, que investe pesado para transformar artistas em máquinas de consumo e marketing político indireto.
💬 Nota
Resumo: O sertanejo universitário não é só entretenimento — é negócio bilionário ligado ao agronegócio e à lógica da indústria cultural.
– Década de 2000: dupla Jorge & Mateus marca a virada do estilo com letras românticas e conexão com o público jovem universitário.
– Plataformas digitais e rádios do interior impulsionaram o crescimento.
– Em 2022, segundo o Spotify Wrapped, o sertanejo ocupava 5 das 10 músicas mais ouvidas no Brasil.
O "universitário" não se refere a elite acadêmica, mas à juventude urbana de classe média que passou a consumir baladas e festivais como novos rituais sociais.
– Grandes produtores rurais e empresários do setor investem diretamente em artistas, festivais e casas de show.
– Marcas ligadas ao campo (bebidas, insumos, maquinário) patrocinam megaeventos.
– Segundo estudo da Folha de S. Paulo (2022), shows sertanejos movimentam mais de R$ 2 bilhões/ano, grande parte com patrocínio do agro.
– Escritórios como AudioMix (responsável por Jorge & Mateus, Gusttavo Lima) operam como conglomerados: controlam agenda, marketing, direitos autorais e até camarotes.
– O modelo é próximo ao da indústria pop coreana: gestão total da carreira e da imagem.
  • Exemplo de engenharia de negócios
Gusttavo Lima, um dos maiores nomes do gênero, tem contrato de shows com cachês médios de R$ 700 mil (dados da Revista Piauí, 2022).
Vários desses contratos foram pagos com verba pública de prefeituras do interior, frequentemente patrocinadas por empresas ligadas ao agronegócio.
– Letras simples, muitas vezes sobre bebida, traição e ostentação, funcionam como válvula de escape para jovens.
– A festa sertaneja se torna um espaço de consumo ritualizado: camarote, bebidas premium, ingressos VIP.
– Como aponta Muniz Sodré, a mídia brasileira cria “mitos populares de consumo” que servem para anestesiar tensões sociais.
A indústria cultural vende felicidade pronta em doses sonoras.
Muniz Sodré
💬 Nota
Resumo: A alienação não está apenas na letra, mas na forma como o consumo se organiza em torno da experiência sertaneja.
– Muitos artistas diversificam em agronegócio, bebidas e imóveis.
– A cadeia sertaneja movimenta:
  • venda de ingressos,
  • camarotes,
  • patrocínios,
  • publicidade digital,
  • streaming.
    – Segundo a ANCINE (2021), o sertanejo representava cerca de 60% do mercado de shows nacionais pagos com verba pública municipal.
O show vira não só entretenimento, mas também moeda política e vitrine de capital do agro.
– Críticos como José Miguel Wisnik apontam que o sertanejo atual pouco dialoga com a tradição caipira, sendo mais próximo de uma música pop ruralizada.
– Enquanto isso, gêneros como samba, forró e rap recebem menos patrocínio, apesar de relevância cultural.
– A hegemonia sertaneja reflete não apenas gosto popular, mas concentração de investimentos.
💬 Nota
Resumo: O que ouvimos é tanto escolha cultural quanto resultado de engenharia de mercado.
O sertanejo universitário é fenômeno complexo:
Música e lazer para milhões.
Ferramenta de investimento e propaganda indireta do agronegócio.
Produto da indústria cultural, que combina alienação, espetáculo e lucro.
Reconhecer esse contexto não significa negar valor artístico ou cultural, mas entender que, assim como todo produto da sociedade de consumo, o sertanejo é também um negócio altamente planejado.
💬 Nota
Resumo final: O sertanejo universitário não é apenas trilha de festas — é um espelho do poder econômico e cultural do agronegócio no Brasil.
Folha de S. Paulo (2022): "Shows sertanejos e verbas públicas no interior do Brasil"
Revista Piauí (2022): Reportagem sobre os cachês de Gusttavo Lima
ANCINE (2021): Dados de shows e verbas municipais
José Miguel Wisnik: O Som e o Sentido
Muniz Sodré: A Sociedade Midiática
Theodor Adorno & Max Horkheimer: Indústria Cultural e Sociedade
Sobre o Autor
Henrique Reis é desenvolvedor, pesquisador independente e jovem empreendedor baiano.
Neste blog, analisa sociedade, cultura e economia, unindo reflexão crítica e observação prática.
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