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Corrida dos Ratos | Ensaio sobre desempenho, ansiedade e o sujeito esgotado da modernidade

Artigo longo
7 min de leitura
Henrique Reis
Publicado em 28 de novembro de 2025• Atualizado em 28 de novembro de 20257 min de leitura

Resumo do artigo

Um ensaio filosófico e sociológico sobre a 'corrida dos ratos': produtividade infinita, exaustão, ansiedade, competitividade e a construção do sujeito esgotado.
sociologia
filosofia
modernidade
trabalho
produtividade
Corrida dos Ratos | Ensaio sobre desempenho, ansiedade e o sujeito esgotado da modernidade
Há certas expressões que definem não um fenômeno externo, mas um estado de espírito coletivo. “Corrida dos ratos” é uma delas. O termo parece despretensioso, quase informal, mas descreve com precisão cirúrgica a sensação contemporânea de estar sempre atrasado, sempre devendo, sempre correndo — e, paradoxalmente, sempre parado no mesmo lugar. A corrida dos ratos não é apenas um modelo econômico: é um modo de vida, um regime emocional, uma arquitetura subjetiva construída pela modernidade tardia. Este ensaio explora a corrida dos ratos como experiência existencial. Não se trata de criticar o trabalho em si, nem de lamentar a aceleração tecnológica. Trata-se de compreender a lógica que transforma o indivíduo em competidor permanente, consumidor de si mesmo, prisioneiro de expectativas indefinidas. Aqui, cruzo Bauman, Byung-Chul Han, Hartmut Rosa, Weber e elementos da psicologia contemporânea para reconstruir o que significa existir em um mundo onde desempenho é sinônimo de valor.
A corrida dos ratos evoca uma imagem simples: pequenos animais correndo freneticamente dentro de um labirinto sem saída. Quanto mais correm, mais permanecem no mesmo lugar. Quanto mais se esforçam, mais o esforço se torna condição de sobrevivência, não de progresso. Na sociedade atual, essa metáfora é menos caricata do que parece. Vivemos dentro de estruturas que exigem movimento constante: produtividade, atualização, eficiência, reinvenção. A promessa de crescimento contínuo, que marcou a modernidade sólida, deu lugar à obrigação de adaptação infinita característica da modernidade líquida. O labirinto não é prisão física, mas emocional. Ele se reorganiza conforme nos movemos. Não há chegada. Não há linha de chegada porque não há finalidade última. O que existe é a exigência permanente de movimento.
Byung-Chul Han chama nossa época de “sociedade do desempenho”. Não vivemos mais sob a lógica disciplinar do “você deve” (tão bem descrita por Foucault), mas sob a lógica sedutora e brutal do “você pode”. E se você pode, então deve. Não porque alguém obriga, mas porque você obriga a si mesmo. A corrida dos ratos não funciona mais por coerção externa, mas por uma interiorização da obrigação. O indivíduo acredita que está correndo porque quer, quando, na verdade, está correndo porque acredita que não há alternativa. O “eu posso” esconde o “eu preciso”. E o “eu preciso” esconde o “eu não posso parar”. Essa é a transição mais profunda da modernidade tardia: o disciplinado se torna empreendedor de si mesmo.
O controle deixa de vir de fora e passa a vir de dentro.
A corrida dos ratos não é um sistema repressivo; é um sistema de autoexploração.
A ansiedade contemporânea não é apenas sintoma individual — é sintoma estrutural. A corrida dos ratos produz um tipo específico de ansiedade: a ansiedade do sempre insuficiente. Vivemos em um mundo que transforma qualquer estabilidade em risco. Tudo pode ser perdido: emprego, relevância, corpo, imagem, conexões, audiência, oportunidades. Não existe chão. E onde não há chão, há medo. Esse medo não se expressa sempre como pânico. Expressa-se como inquietação contínua, como incapacidade de descansar, como urgência constante em preencher o tempo com algo útil, como dificuldade de simplesmente estar. O descanso se torna culpa; o ócio, fracasso; a pausa, fraqueza. A ansiedade não é exceção: é funcionamento normal.
A corrida dos ratos não surge do nada. Ela tem raízes históricas profundas. Max Weber, na famosa análise da ética protestante, mostra que o capitalismo moderno nasceu não apenas da economia, mas de um ethos moral de disciplina, trabalho e ascetismo. Trabalhar duro era sinal de salvação; enriquecer era sinal de bênção divina. Essa moralidade deslocou-se do religioso para o econômico, e do econômico para o psicológico.
O que antes era obrigação espiritual tornou-se obrigação produtiva.
E o que era obrigação produtiva tornou-se obrigação subjetiva.
Mas o capitalismo do século XXI não exige apenas produtividade. Ele exige flexibilidade, inovação, adaptação. Não quer trabalhadores estáveis; quer sujeitos maleáveis. Não quer carreiras; quer projetos. Não quer continuidade; quer aceleração. Como observa Hartmut Rosa, vivemos numa “sociedade da aceleração”, em que o ritmo de vida se intensifica mais rápido do que conseguimos acompanhar. A corrida dos ratos é, nesse sentido, o sintoma subjetivo de uma estrutura objetiva.
A corrida dos ratos se sustenta em uma lógica simples, mas devastadora: nunca é suficiente.
Sempre há algo mais a fazer, a conquistar, a postar, a alcançar, a otimizar.
A vida deixa de ser vivida e passa a ser medida.
Essa é a primeira das duas únicas listas deste ensaio — não como didatismo, mas como síntese conceitual da lógica da insuficiência:
  • O que você tem nunca basta.
  • Quem você é nunca basta.
  • O que você fez nunca basta.
  • O que você pensa nunca basta.
  • O que você sente nunca basta.
É a lógica que transforma o ser em desempenho e a existência em prova permanente.
A corrida dos ratos precisa de combustível. E nenhum combustível é mais eficiente do que comparação. A comparação constante, intensificada pela vida digital, cria uma hiperconsciência de inadequação. Redes sociais não criam esse fenômeno; amplificam-no. A comparação não é defeito humano; é parte de nossa psicologia. Mas quando se torna regra, não ferramenta, produz sofrimento. A vida do outro torna-se referência permanente. O sucesso do outro vira débito. A felicidade alheia torna-se espelho distorcido. E qualquer descanso parece preguiça. O sujeito contemporâneo não compete com outros indivíduos reais, mas com versões idealizadas de vida que ninguém possui. A corrida dos ratos não é competição com o próximo — é competição com fantasmas.
A corrida dos ratos não afeta apenas a mente; afeta o corpo. O corpo moderno é pressionado pela produtividade contínua, mas também pela estética do desempenho: exercícios, metas, corpos otimizados, saúde como projeto, longevidade como investimento. O corpo deixa de ser vivido e passa a ser gerido.
Ele se torna indicador de sucesso.
Mas nenhum corpo aguenta fluxos infinitos.
Burnout não é falha individual: é colapso sistêmico.
A corrida dos ratos se encaixa na modernidade líquida de Bauman porque ambas compartilham o mesmo mecanismo: instabilidade estrutural. Relações, carreiras, identidades, vínculos — tudo se torna reversível. Mas reversibilidade não é sinônimo de liberdade. É sinônimo de incerteza. A vida líquida exige improvisação constante.
E a improvisação constante exige energia constante.
E ninguém tem energia constante.
A corrida dos ratos nasce da promessa de liberdade, mas floresce na falta de direção.
A internet não criou a corrida dos ratos, mas deu a ela uma plataforma ampliada, constante, onipresente. O sujeito digital trabalha, se compara, se expõe, se vigia e se performa 24 horas por dia. Guy Debord já havia antecipado que a sociedade se tornaria espetáculo.
Agora, cada indivíduo é emissor permanente de seu próprio espetáculo.
Na vida digital, o tempo livre não é mais livre; é monetizável.
A criatividade não é lazer; é portfólio.
A intimidade não é privada; é conteúdo.
A corrida dos ratos não tem pausas porque a internet não tem pausas.
A corrida dos ratos não tem vencedor, porque não tem linha de chegada. A lógica da produtividade infinita não prevê satisfação. Ela só prevê continuidade. Sempre haverá um próximo objetivo, uma próxima métrica, uma próxima atualização. A vida deixa de ser finita e passa a ser infinita — não em tempo, mas em exigências.
E exigências infinitas só podem produzir um sujeito finito esgotado.
Aqui uso a segunda e última lista do ensaio, como síntese existencial:
  • Não sabemos descansar.
  • Não sabemos parar.
  • Não sabemos não comparar.
  • Não sabemos existir sem desempenho.
A sociedade contemporânea adora transformar problemas estruturais em falhas pessoais. O burnout vira falta de disciplina. A ansiedade vira falta de foco. A exaustão vira fraqueza. Mas o sujeito esgotado não é fracassado: é produto lógico de uma estrutura que exige o impossível. É alguém que correu demais porque acreditou demais. E acreditar demais não é defeito — é consequência da promessa moderna de que tudo é possível se você se esforçar o suficiente. Essa promessa é sedutora. Mas é falsa.
Não existe saída mágica. Não existe “escapar do sistema”. O que existe são formas menos destrutivas de viver dentro dele. Não se trata de renunciar à produtividade, mas de recuperar uma compreensão mais madura do que significa produzir, criar, descansar, existir. A corrida dos ratos não é destino; é diagnóstico.
E diagnósticos, diferentemente de sentenças, são pontos de partida para lucidez.
A corrida dos ratos é o modo de vida que transformou movimento em obrigação, produtividade em identidade e ansiedade em normalidade. Ela não é apenas uma estrutura econômica; é uma estética existencial. E, paradoxalmente, quanto mais corremos, mais o mundo exige que corramos. O que este ensaio sugere não é
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