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Quem é Nietzsche? | Desmitificando o Ídolo

Henrique Reis
Publicado em 24 de novembro de 2025• Atualizado em 24 de novembro de 20258 min de leitura
Quem é Nietzsche? | Desmitificando o Ídolo
Poucos filósofos sofreram um processo de simplificação tão intenso quanto Friedrich Nietzsche. Sua figura, ao longo do último século, foi gradualmente envolvida por interpretações que variam do desdém ao fascínio acrítico. Em ambos os casos, a consequência é semelhante: a obra perde sua complexidade e passa a operar como símbolo. Símbolos, porém, raramente aparecem sozinhos; carregam consigo uma forma de rigidez. O Nietzsche transformado em ícone é justamente aquilo que Nietzsche, como pensador, combateu por toda a vida — uma verdade petrificada. Este ensaio nasce da necessidade de desfazer essa camada endurecida. Não para substituir um mito por outro, mas para permitir que o filósofo retorne como aquilo que foi: um analista rigoroso da moral, um crítico da cultura moderna, um escritor de grande sensibilidade e, acima de tudo, alguém profundamente comprometido com a tarefa de compreender o que significa viver sem garantias transcendentes. Nosso objetivo aqui não é defender Nietzsche, mas compreendê-lo com precisão. E isso exige desmontar o ídolo.
Antes de resgatar o Nietzsche real, é preciso lidar com a versão que se impôs na cultura popular. O filósofo foi frequentemente reduzido a rótulos que pouco dizem sobre sua obra e muito dizem sobre as ansiedades da própria modernidade. A caricatura mais difundida é a do niilista. A associação parece intuitiva para quem lê apenas a frase “Deus está morto” isolada de seu contexto. A leitura apressada reduz o anúncio nietzschiano a uma celebração da perda de sentido, como se Nietzsche tivesse proposto uma ética da desistência. No entanto, sua obra indica o contrário: o niilismo é um problema histórico que exige superação, não adesão. Outra distorção recorrente associa Nietzsche ao nazismo. Essa associação foi construída sobretudo pela edição manipulada de seus escritos pela irmã, Elisabeth Förster-Nietzsche, que reorganizou manuscritos, omitiu críticas ao antissemitismo e produziu uma leitura conveniente para o clima ideológico da Alemanha da época. A obra publicada por ele em vida mostra o oposto: Nietzsche desprezava nacionalismos, rejeitava discursos raciais e desconfiava de qualquer movimento que buscasse unidade moral ou política em larga escala. Também é frequente a ideia de que Nietzsche celebrava a força bruta ou a dominação física. Na verdade, sua noção de força é interior: trata-se de capacidade de criação, de resistência ao desespero, de honestidade diante da própria psicologia. Sua filosofia é antiheroica no sentido clássico. Não há lugar nela para triunfos fáceis. Nietzsche não propõe um ideal de brutalidade, mas uma ética de intensificação da vida. Todas essas imagens erradas funcionam como barreiras de leitura. Quando caem, o filósofo se torna novamente acessível.
Desfazer os equívocos abre espaço para compreender Nietzsche em sua própria densidade. Sua filosofia não nasce de abstrações distantes, mas de um olhar profundo sobre as tensões da existência moderna. Nietzsche percebe que a modernidade vive uma espécie de exaustão silenciosa. Os pilares tradicionais que estruturavam a vida — religião, metafísica, moral transcendente — perderam força. Restou ao indivíduo a tarefa de orientar-se em um mundo que já não oferece garantias. Esse diagnóstico, que em sua época parecia ousado, tornou-se a condição padrão da subjetividade contemporânea. Sua resposta a essa crise não é restaurar o que caiu, mas operar no espaço aberto pela queda. É aqui que sua noção de tragédia se torna decisiva. O trágico, para Nietzsche, não é pessimismo, mas maturidade. Ele reconhece que a vida não está protegida por sentidos prévios; ao mesmo tempo, recusa a ideia de que a ausência de sentido conduz à paralisação. A tragédia é a forma mais elevada de lucidez, pois acolhe a inseparabilidade entre dor e potência, finitude e criação. Nietzsche ocupa uma posição singular: é crítico das ilusões metafísicas, mas não abdica da necessidade de construir valores. Essa tensão é o centro de sua filosofia. Sua obra não destrói a possibilidade de sentido; destrói apenas as justificações transcendentais que se pretendem absolutas. No vazio deixado por elas, aparece a tarefa humana de construir, com responsabilidade e coragem, aquilo que se deseja afirmar.
Para entender Nietzsche de maneira rigorosa, é essencial distinguir o niilismo como fenômeno histórico do niilismo como doutrina. Nietzsche jamais foi defensor do niilismo; ao contrário, foi seu mais atento observador. Ele o descreve como uma condição cultural em que os valores perdem seu fundamento e o mundo deixa de oferecer orientação estável. Essa condição pode assumir duas formas. A primeira é o niilismo passivo: a desistência silenciosa, o cansaço que leva o indivíduo a aceitar a vida como algo desprovido de sentido. A segunda, mais rara, é o niilismo ativo: o momento em que se percebe que a perda de fundamentos não impede a criação. A diferença entre ambos não está na ausência ou presença de sentido, mas na disposição interior diante dessa ausência. Nietzsche trabalha na passagem entre essas duas formas. Ele sabe que o colapso das certezas pode produzir ressentimento e desorientação. Mas sabe também que o mesmo colapso abre portas para novas possibilidades. Sua filosofia, portanto, não é uma adesão ao vazio, mas uma tentativa de convertê-lo em campo de criação. Por isso, classificá-lo como niilista é perder de vista precisamente aquilo que dá força ao seu pensamento. Nietzsche é o filósofo da superação do niilismo, não o seu porta-voz.
É natural comparar Nietzsche ao absurdismo de Camus, pois ambos lidam com a falta de garantias transcendentes. Mas suas respostas são distintas. Para Camus, o absurdo é uma condição fundamental: a existência humana deseja sentido, enquanto o mundo permanece silencioso. A consequência é a revolta, uma forma de dignidade sem transcendência. Nietzsche, por sua vez, não se detém no absurdo. Para ele, o silêncio do mundo não é obstáculo, mas ponto de partida. A tarefa não é revoltar-se contra o absurdo, mas criar formas de vida que não dependam de justificações externas. Em outras palavras, Nietzsche atravessa o absurdo em direção à afirmação. Ambos reconhecem a fragilidade da existência, mas o movimento é diferente. Camus permanece na tensão; Nietzsche busca transformá-la. Essa diferença marca duas atitudes éticas distintas diante do mesmo cenário.
Ao recusar fundamentos transcendentes, Nietzsche coloca a vida no centro. Isso significa que valores não são descobertos, mas criados; não são prescrições universais, mas expressões de formas de existência. A ética deixa de ser um conjunto de normas e torna-se uma prática de interpretação. Essa perspectiva exige responsabilidade radical. Sem a proteção de uma ordem cósmica ou de uma moral divina, resta ao indivíduo lidar com a própria interioridade. O peso é significativo, pois implica reconhecer a participação pessoal na construção da vida que se leva. Uma consequência dessa postura é a valorização do corpo. Nietzsche critica a separação tradicional entre corpo e espírito, sugerindo que a filosofia deve partir das forças vitais, não de abstrações desligadas da experiência. Pensar é prolongamento da vida, não sua negação. Essa visão converge com sua crítica à moral tradicional, que frequentemente considera o corpo como fonte de erro e tenta subordinar os impulsos à lógica de deveres fixos. Nietzsche não celebra impulsos de maneira ingênua; ele apenas reconhece que negar o corpo é negar a própria condição humana.
A ferramenta que Nietzsche desenvolve para analisar os valores é a genealogia. A genealogia parte da premissa de que valores não surgem puros; são resultado de processos históricos, conflitos de forças, interpretações, ressentimentos e necessidades específicas de grupos. Ao perguntar “de onde vem esse valor?”, Nietzsche desloca a moral de seu pedestal metafísico e a reconduz ao campo das relações humanas. Com isso, revela que muitas das ideias consideradas universais são, na verdade, construções situadas. A genealogia não destrói a moral, mas a historiciza, e, ao fazê-lo, permite que ela seja reconstruída. Esse método tem impacto profundo na filosofia contemporânea. Grande parte da crítica cultural atual — das discussões sobre identidade até debates sobre tecnologia e subjetividade — carrega traços do gesto genealógico nietzschiano.
O conceito de Übermensch é um dos mais deturpados da obra de Nietzsche. Ele não designa superioridade biológica nem qualquer forma de hierarquia racial. Trata-se de uma figura ideal, uma espécie de horizonte ético. O Übermensch é o indivíduo capaz de criar valores a partir de si, não por arbitrariedade, mas por capacidade de afirmar a vida em sua totalidade. Ele não busca pureza moral, mas integridade existencial. Sua força não está na dominação, mas na maturidade de aceitar-se como autor da própria vida. Essa figura simboliza a superação do niilismo. Ela representa a possibilidade de viver sem ressentimento, sem nostalgia de fundamentos e sem medo da instabilidade.
“Amor fati” — amar o próprio destino — expressa a dimensão prática da filosofia nietzschiana. Não se trata de resignação, mas de afirmação. Amar o destino significa dizer sim à vida tal como ela é, inclusive às suas dores e fracassos. O eterno retorno, por sua vez, não deve ser lido como hipótese cosmológica, mas como exercício ético. Pergunta-se: se a vida tivesse de se repetir infinitamente, tal como é, seria possível afirmá-la? O teste revela a intensidade com que vivemos. A resposta nunca é simples, mas a pergunta já transforma a relação com a existência.
A atualidade de Nietzsche é evidente. Vivemos em um mundo marcado por instabilidade, aceleração e excesso de estímulos. As antigas estruturas de sentido perderam força, mas as novas ainda não se estabilizaram. Entre essas tensões, formas de ressentimento, ansiedade e cansaço se espalham com facilidade. Nietzsche antecipa esse cenário. Ele percebe que a modernidade substitui velhos deuses por novos: produtividade, visibilidade, identidade, consumo. O gesto nietzschiano é recusar esses substitutos e convidar o indivíduo a enfrentar o vazio de forma madura e criativa. Isso não significa heroísmo. Significa lucidez. Nietzsche não oferece respostas prontas, mas uma postura diante da existência: coragem para viver sem garantias, responsabilidade para inventar significados e honestidade para reconhecer os limites do próprio olhar.
Desmistificar Nietzsche não é reduzi-lo; é torná-lo novamente inteligível. Seu pensamento permanece exigente, mas não inacessível. Exige atenção, paciência e disposição para lidar com a fragilidade da existência sem buscar refúgio em explicações fáceis. O filósofo que surge após a desconstrução do mito não é um ídolo, mas um interlocutor rigoroso. Alguém que examina a vida sem ilusões, mas que, ainda assim, encontra maneiras de afirmá-la. Seus textos não são convites ao desespero; são convites à maturidade. Nietzsche nos obriga a abandonar a proteção das certezas fixas, mas, ao fazer isso, devolve à vida sua intensidade. Assim, compreender Nietzsche é compreender a si mesmo diante de um mundo sem garantias. E talvez seja exatamente essa condição, tão incerta quanto inevitável, que torna sua filosofia tão necessária hoje.
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