Como Power Rangers transformou imagens de Super Sentai em uma franquia própria — e o que aconteceu com séries, filmes, quadrinhos e projetos recentes.
Nota de estudoPower RangersSuper SentaiTokusatsu
Revisado em 15 de agosto de 2026.
Power Rangers nasceu de uma ideia que parece simples apenas depois que alguém prova que ela funciona: filmar uma série juvenil nos Estados Unidos e encaixar nela batalhas produzidas para outra série, em outro país, com outros personagens e outra história.O resultado não foi uma simples dublagem de programa japonês. Foi uma colagem industrial improvável, barata o suficiente para a televisão infantil dos anos 1990 e flexível o bastante para atravessar três décadas. Essa origem explica tanto o charme quanto as contradições da franquia.Resumo
O essencial
Mighty Morphin Power Rangers estreou nos Estados Unidos em 1993 e adaptou imagens de Kyōryū Sentai Zyuranger.
A produção combinava cenas americanas de cotidiano com lutas, monstros e robôs vindos do Japão.
A franquia passou por Saban, Disney, novamente Saban e, desde 2018, Hasbro.
Cosmic Fury, de 2023, continua sendo a temporada televisiva mais recente.
Um novo projeto para o Disney+ deixou de avançar em agosto de 2026, segundo a imprensa especializada; não há nova série anunciada para substituí-lo.
Power Rangers continua ativo em quadrinhos, jogos, produtos e distribuição de seu catálogo.
A identidade de Power Rangers sempre dependeu do encontro entre cores, transformação e ação coletiva. Composição editorial original, sem personagens ou símbolos da franquia.Fonte: Henrique Reis — ativo editorial original · Consulta: 15 de agosto de 2026
Antes dos Rangers: o que é Super Sentai
Power Rangers começa no Japão, mas não com uma série chamada Power Rangers. Desde 1975, a Toei produzia Super Sentai: programas de efeitos especiais — o tokusatsu — organizados em torno de equipes coloridas, monstros, veículos e robôs gigantes.Cada temporada normalmente apresentava outra equipe, outro tema e novos brinquedos. Em 1992, Kyōryū Sentai Zyuranger combinou dinossauros, fantasia e um sexto herói de enorme apelo visual. Foi essa produção que ofereceu a matéria-prima para a primeira temporada americana.Haim Saban já tentava vender a ideia de adaptar Sentai havia anos. A solução finalmente aceita não foi esconder completamente a origem japonesa, mas reconstruir o contexto ao redor dela. Jason, Kimberly, Zack, Trini e Billy seriam adolescentes de Angel Grove; quando colocavam os capacetes, as imagens podiam mudar para as lutas de Zyuranger.A própria Toei descreve Power Rangers como um remake americano de Super Sentai. “Remake”, porém, é uma palavra curta para um processo muito mais estranho e criativo.
1993: a colagem que virou fenômeno
Mighty Morphin Power Rangers estreou em 28 de agosto de 1993 no bloco Fox Kids. A estrutura era direta: problema adolescente, ameaça da semana, transformação, luta de tamanho humano e batalha de Megazord.O ritmo acelerado disfarçava uma engenharia complicada. Figurinos, enquadramentos e diálogos precisavam conduzir naturalmente a cenas filmadas meses antes no Japão. Rita Repulsa, por exemplo, aparecia em imagens da atriz Machiko Soga, mas recebia outra voz e motivações reorganizadas para a versão americana.Quando a série explodiu, o limite do material existente virou um problema. A produção encomendou à Toei novas lutas com os figurinos de Zyuranger, gravadas especificamente para uso americano. Entre fãs, esse material ficou conhecido como “Zyu2”. Power Rangers já não era apenas adaptação: começava a alterar o processo que o havia originado.
InfoNão é correto chamar Power Rangers de cópia
A franquia depende de Super Sentai e deve reconhecer essa origem. Ao mesmo tempo, roteiros, personagens, continuidade, elenco e parte crescente das cenas foram produzidos especificamente para Power Rangers. A relação é de adaptação e coprodução de materiais, não de reprodução integral.
Como a fórmula mudou sem deixar de ser reconhecível
A permanência de Power Rangers não veio de repetir para sempre a primeira equipe. Veio da capacidade de trocar quase tudo e preservar meia dúzia de sinais reconhecíveis: cores, transformação, equipe, ameaça semanal e máquinas que se combinam.
Da continuidade longa às temporadas quase independentes
As primeiras fases formam uma sequência: Mighty Morphin, Zeo, Turbo e In Space acompanham trocas graduais de poderes e personagens. In Space, em 1998, encerrou muitos conflitos acumulados e provou que a série podia construir consequências maiores sem abandonar sua estrutura infantil.Depois, Lost Galaxy aproximou Power Rangers do modelo de antologia anual de Super Sentai. Novas equipes passaram a ocupar a tela com mais liberdade. Time Force trabalhou viagem no tempo e preconceito; RPM colocou os heróis num mundo quase destruído; Dino Charge apostou em aventura expansiva; Dino Fury e Cosmic Fury voltaram a investir numa continuidade mais longa.Essa variedade explica por que perguntar “qual é a melhor temporada?” costuma produzir respostas incompatíveis. Algumas pessoas procuram o conforto de Mighty Morphin. Outras preferem temporadas que usam a fórmula para contar ficção científica, drama policial, fantasia ou histórias pós-apocalípticas.
A era Disney não foi apenas manutenção
A Disney recebeu a franquia em 2001 ao comprar a Fox Family Worldwide. A produção foi transferida para a Nova Zelândia, escolha que reduziu custos e definiu a aparência de muitas temporadas posteriores.Embora a empresa tenha encerrado a produção de episódios inéditos em 2009, essa fase inclui temporadas hoje bastante defendidas por fãs, como Dino Thunder, S.P.D., Jungle Fury e RPM. A cronologia corporativa da própria Disney registra a venda de volta para a Saban em 2010.
Quem foi dono de Power Rangers
Referência
Tabela
Em 2018, a Hasbro anunciou a compra de Power Rangers e de outras propriedades da Saban por uma combinação de dinheiro e ações avaliada inicialmente em US$ 522 milhões. O número aparece no comunicado oficial da aquisição e inclui outras marcas; não é uma avaliação isolada de Power Rangers.A mudança colocou a dona da franquia também no centro da estratégia de brinquedos. Em 2024, porém, a Hasbro licenciou para a Playmates Toys a produção e distribuição global de novos brinquedos a partir de 2025, mantendo os direitos de entretenimento e a direção geral da marca.
Filmes, especiais e tentativas de recomeço
Power Rangers chegou ao cinema em 1995 com uma aventura que não utilizava as imagens de Super Sentai e possuía efeitos e figurinos próprios. O filme funciona como uma continuidade alternativa: não é necessário encaixá-lo rigorosamente entre os episódios da televisão.Em 2017, outra versão reimaginou os cinco heróis como adolescentes mais vulneráveis e tratou a transformação como recompensa tardia. A intenção era abrir uma série de filmes, mas a continuação não avançou. O resultado continua interessante como tentativa de adaptar a franquia à linguagem dos blockbusters, embora passe tanto tempo preparando Power Rangers que quase esconde a energia que deveria celebrar.Já Mighty Morphin Power Rangers: Once & Always, lançado pela Netflix em 2023, escolheu o caminho oposto. O especial abraçou a continuidade televisiva, trouxe integrantes de diferentes fases da equipe original e transformou ausência, memória e passagem de responsabilidade em parte da história.
Cosmic Fury e o fim do ciclo televisivo atual
Também em 2023, Power Rangers Cosmic Fury encerrou a narrativa iniciada em Dino Fury. Seus dez episódios estão listados oficialmente pela Netflix.A temporada é uma exceção importante no método de adaptação. Ela utiliza elementos mecânicos de Uchu Sentai Kyuranger, mas os uniformes principais foram criados para Power Rangers e grande parte das lutas foi filmada pela produção neozelandesa. Não é uma ruptura total com Sentai, mas é o ponto em que a série mais se aproxima de caminhar com identidade visual própria.Até agosto de 2026, Cosmic Fury permanece como a temporada televisiva mais recente. Isso não confirma um encerramento definitivo da franquia, apenas uma pausa sem sucessora anunciada.
O que está acontecendo com Power Rangers agora
Aqui é importante separar anúncio, desenvolvimento e produção concluída.Em 2025, foi noticiado que a Hasbro e a 20th Television desenvolviam uma nova série live-action para o Disney+, com Jonathan E. Steinberg e Dan Shotz ligados ao projeto. Em junho de 2026, um comunicado corporativo da Hasbro ainda citava a série como “em desenvolvimento”.Em 14 de agosto de 2026, porém, a imprensa especializada informou que o projeto não seguiria adiante no Disney+. Segundo a apuração publicada originalmente pelo Deadline, a decisão estaria ligada ao orçamento e ao fato de a Disney não possuir a propriedade intelectual. Até a revisão deste artigo, Hasbro e Disney não haviam apresentado em seus canais institucionais um novo projeto para substituí-lo.Isso deixa Power Rangers numa posição incomum: reconhecível demais para desaparecer, mas sem uma série de TV em produção publicamente confirmada.
AvisoNão existe uma nova temporada confirmada
Anúncios de elenco, títulos, uniformes ou datas para um próximo reboot devem ser tratados como rumor enquanto não aparecerem em fontes oficiais da Hasbro, da produtora ou da plataforma responsável.
A mudança japonesa também importa
O lado japonês da equação passa por sua própria transição. No.1 Sentai Gozyuger celebrou os 50 anos de Super Sentai e terminou em fevereiro de 2026. Seu horário foi ocupado por Super Space Sheriff Gavan Infinity, primeira produção do novo Project R.E.D., anunciado pela TV Asahi como outra marca de tokusatsu.Isso não apaga o acervo de Super Sentai: eventos e lançamentos continuam usando a marca. Mas interrompe o fornecimento anual de uma nova equipe que, durante décadas, ofereceu trajes, monstros e robôs para possíveis adaptações americanas. Qualquer futuro Power Rangers terá de escolher entre material antigo, uma parceria reformulada ou produção visual própria.
Quadrinhos, jogos e produtos mantêm a marca em movimento
Enquanto a televisão pausa, os quadrinhos se tornaram um dos espaços mais consistentes para novas histórias. A BOOM! Studios encerrou uma longa continuidade e iniciou Power Rangers Prime em novembro de 2024: outro universo, com personagens conhecidos reorganizados e roteiro de Melissa Flores.Nos jogos, Mighty Morphin Power Rangers: Rita’s Rewind chegou em dezembro de 2024. O beat ’em up da Digital Eclipse assume a nostalgia de fliperama e alterna brigas de rua, perseguições e batalhas de Megazord. É menos uma reinvenção do que uma leitura cuidadosa do que a memória dos anos 1990 transformou em ícone.A Hasbro também mantém curtas, catálogo e produtos associados à fase Mighty Morphin. É um sinal de atividade, mas não equivale a uma nova temporada narrativa.
Curiosidades que ajudam a enxergar a produção
1. O uniforme amarelo conta uma história de adaptação
Em Zyuranger, o herói amarelo, Boi, era homem. Em Mighty Morphin, Trini era mulher. Isso ajuda a explicar por que, nas imagens japonesas, o uniforme amarelo não possui a saia vista no uniforme rosa. A adaptação mudou a personagem sem redesenhar todo o material disponível.
2. Bryan Cranston estava na franquia antes de interpretar Zordon
Muito antes do filme de 2017, Bryan Cranston dublou monstros na série original. O ator afirmou que Billy Cranston, o Ranger Azul, recebeu o sobrenome em referência a ele. Décadas depois, Cranston voltou como Zordon — uma coincidência de escala quase perfeita para uma franquia movida a reciclagens inesperadas.
3. Existiu outro piloto
Antes do episódio de estreia conhecido pelo público, a produção gravou uma versão piloto com diferenças de elenco, cenário e terminologia. Audri DuBois interpretava Trini; o ponto de encontro dos jovens era uma pista de boliche, e nomes como Zordon e Power Morphers ainda não estavam estabilizados.Pilotos mudarem não é incomum. O curioso é perceber como elementos que hoje parecem inevitáveis — o Centro de Comando, o Bar do Ernie, a forma de nomear os poderes — também foram decisões de revisão.
4. Tommy mostrou que uma participação podia reorganizar toda a série
O Ranger Verde de Zyuranger tinha uma função limitada na narrativa japonesa. A recepção de Tommy Oliver fez a produção americana procurar maneiras de mantê-lo, mesmo quando o material original se tornava escasso.Mais tarde, o personagem recebeu os poderes do Ranger Branco, cujo traje vinha de outra série, Gosei Sentai Dairanger. Fazer aquele uniforme coexistir com os trajes de Zyuranger exigiu mais cenas próprias e consolidou Tommy como ponte entre diferentes equipes.
5. Nem tudo pertence à mesma continuidade
O filme de 1995, o reboot de 2017, a série principal e os universos dos quadrinhos não precisam concordar entre si. Power Rangers funciona melhor quando tratamos essas versões como interpretações relacionadas, e não como peças obrigatórias de uma cronologia impossível.
Por onde começar hoje
Não é necessário assistir a mais de 900 episódios em ordem. Há entradas melhores para interesses diferentes:
Mighty Morphin Power Rangers: para conhecer a origem, aceitar o ritmo episódico e observar a colagem entre Estados Unidos e Japão.
Power Rangers in Space: para uma aventura serializada que recompensa parte da continuidade inicial.
Power Rangers Time Force: para drama de ficção científica e personagens com conflitos mais definidos.
Power Rangers Dino Thunder: para equilibrar legado, nova equipe e uma estrutura acessível.
Power Rangers RPM: para ver até onde a fórmula pode ir em um cenário pós-apocalíptico.
Power Rangers Dino Fury e Cosmic Fury: para chegar à fase mais recente sem depender de décadas de contexto.
A disponibilidade varia bastante entre países e temporadas. No Brasil, a página oficial da Netflix confirma Cosmic Fury no catálogo na data desta revisão. Para fases antigas, vale verificar o canal oficial de Power Rangers no YouTube e serviços gratuitos licenciados, sem presumir que todas as temporadas estejam presentes ou dubladas.
O futuro não precisa repetir Mighty Morphin
A nostalgia pelos cinco heróis originais mantém produtos, jogos e especiais reconhecíveis. Ela também pode limitar a franquia. Power Rangers sobreviveu por tanto tempo justamente porque trocou equipes, gêneros, ameaças e formas de produção.O cancelamento de mais um projeto de reboot não significa que a ideia deixou de funcionar. Significa que ainda não apareceu um modelo industrial convincente para combinar orçamento, brinquedos, streaming, público infantil e fãs adultos. A pergunta mais interessante não é quando alguém vestirá novamente aqueles mesmos uniformes. É qual nova forma conseguirá preservar a energia coletiva de Power Rangers sem transformar 1993 numa prisão.Qual temporada definiu Power Rangers para você — e qual fase merece ser redescoberta agora?