Henrique Reis
9 de agosto de 202625 min

Augusto Cury quer criar 10 mil clubes de empreendedorismo: a proposta funcionaria?

A proposta de 10 mil clubes de empreendedorismo e 10 milhões de microempreendedores testada contra escala, evidências de capacitação, crédito e programas existentes.
Nota de estudoAugusto Cury eleições 2026EmpreendedorismoMicrocrédito
Capa editorial sobre clubes de empreendedorismo propostos por Augusto Cury

Revisado em 9 de agosto de 2026.

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2026 A ideia pode ajudar pessoas que precisam planejar, testar e administrar um pequeno negócio. A meta, porém, ainda não demonstra geração de renda. Dez mil clubes podem oferecer capacitação; não criam, por si, dez milhões de empresas sustentáveis, clientes para todas elas ou crédito que possa ser pago. Augusto Cury associou a proposta ao risco de deslocamento de empregos por inteligência artificial e automação. Em entrevistas, falou em clubes ou escolas dentro de comunidades, igrejas e escolas públicas, em formar 10 milhões de microempreendedores ao longo de dez a doze anos e em criar um Banco do Empreendedor para financiar microempresas. Status documental: proposta pública de uma pré-candidatura cuja confirmação eleitoral permanecia incerta na data de corte. Não foram localizados currículo nacional, orçamento, desenho do banco, parceiros contratados ou meta anual oficial. Data de corte: 9 de agosto de 2026, 18h, horário de Brasília.
Navegação da série: Eleições 2026 → Augusto Cury → Emprego e renda. Consulte o perfil de Augusto Cury.
Resumo

Resposta curta

  • Potencial: formação prática, mentoria e rede local podem melhorar planejamento, gestão e acesso a clientes.
  • Escala: 10 milhões de pessoas em dez anos equivalem a um milhão por ano e cem participantes anuais por clube.
  • Ambiguidade: formar pessoas, formalizar MEIs e criar empresas sobreviventes são resultados diferentes.
  • Crédito: pode viabilizar investimento produtivo, mas também transformar uma tentativa sem demanda em dívida familiar.
  • Duplicação: Sebrae, microcrédito, Pronampe, educação profissional e incubadoras já cobrem partes da proposta.
  • Conclusão: a rede pode ser útil como política focalizada; a meta nacional continua incompleta sem custo, seleção, mercado, acompanhamento e avaliação.
A formulação mais recorrente contém três políticas que precisam ser avaliadas separadamente:
  • uma rede física de aproximadamente 10 mil clubes ou escolas;
  • capacitação de 10 milhões de pessoas para o empreendedorismo;
  • um Banco do Empreendedor voltado a financiar microempresas, especialmente em periferias.
As fontes não esclarecem se “formar 10 milhões de microempreendedores” significa matricular, certificar, abrir CNPJ ou manter negócios com renda positiva. Tampouco definem carga horária, currículo, instrutores, seleção, idade mínima, governança ou orçamento. O banco permanece ainda mais aberto: pode ser uma nova instituição financeira pública, um fundo garantidor, uma linha operada por bancos existentes ou uma marca para programas atuais. Sem escolha institucional, não é possível estimar capital, subsídio, risco fiscal nem alcance. Dez milhões de participantes em dez anos significam:
  • 1 milhão de pessoas por ano;
  • 100 participantes por clube por ano;
  • cerca de quatro turmas anuais de 25 pessoas em cada unidade;
  • 1.000 pessoas formadas por clube ao fim da década.
A matrícula é operacionalmente possível. O salto está no resultado econômico. Se a meta significasse dez milhões de empresas ativas, seria necessário criar e manter, em média, um milhão de novos negócios adicionais por ano. Se cada clube apenas capacitasse, uma pessoa poderia concluir o curso, decidir não empreender e ainda representar sucesso educacional — mas não geração de renda.
Referência

A meta muda conforme o indicador

IndicadorO que comprovaO que não comprova
Matrícula
Alcance e procura
Aprendizagem ou negócio
Conclusão
Participação até o fim
Aplicação e renda
CNPJ aberto
Formalização administrativa
Operação, cliente ou lucro
Negócio ativo
Sobrevivência cadastral
Renda líquida suficiente
Receita
Venda realizada
Lucro e capacidade de pagar dívida
Renda líquida
Retorno ao empreendedor
Empregos criados ou causalidade do curso
Empregados formais
Geração direta de postos
Qualidade, duração e adicionalidade

Matrícula

O que comprova
Alcance e procura
O que não comprova
Aprendizagem ou negócio

Conclusão

O que comprova
Participação até o fim
O que não comprova
Aplicação e renda

CNPJ aberto

O que comprova
Formalização administrativa
O que não comprova
Operação, cliente ou lucro

Negócio ativo

O que comprova
Sobrevivência cadastral
O que não comprova
Renda líquida suficiente

Receita

O que comprova
Venda realizada
O que não comprova
Lucro e capacidade de pagar dívida

Renda líquida

O que comprova
Retorno ao empreendedor
O que não comprova
Empregos criados ou causalidade do curso

Empregados formais

O que comprova
Geração direta de postos
O que não comprova
Qualidade, duração e adicionalidade
Sem definir o denominador, “10 milhões” funciona como alcance comunicacional, não meta avaliável. Muitos pequenos negócios começam sem cálculo de preço, separação entre caixa familiar e empresarial, teste de demanda ou controle de estoque. Capacitação prática pode corrigir erros básicos. Mentoria ajuda a adaptar conceitos ao negócio; uma rede comunitária pode aproximar fornecedores, clientes e parceiros. A localização também pode reduzir barreiras de deslocamento e informação. Para públicos excluídos do emprego formal, um negócio viável pode ampliar autonomia e diversificar renda. Microcrédito produtivo orientado pode financiar equipamento ou capital de giro quando existe demanda e falta exatamente o recurso inicial. A literatura sobre formação gerencial encontra, em média, melhora em conhecimento e práticas, com efeitos menores e mais variados sobre lucro, sobrevivência e emprego. Programas mais intensivos, ajustados ao contexto e combinados com acompanhamento tendem a ser mais promissores que palestras isoladas. Mercado não absorve uma quantidade ilimitada de negócios iguais. Ensinar milhares de pessoas a vender o mesmo produto num território pode apenas dividir a demanda existente. Empreendedorismo por necessidade frequentemente significa trabalho por conta própria com baixa produtividade e proteção, não empresa inovadora. Curso não remove sozinho falta de cliente, cuidado infantil, transporte, segurança, internet, equipamento e poder de compra local. Tampouco substitui política industrial, educação técnica, proteção social ou emprego formal. Responsabilizar cada indivíduo por “criar sua vaga” pode esconder restrições macroeconômicas. O risco maior é medir sucesso no ponto mais fácil: certificado e CNPJ. Um programa pode celebrar aberturas enquanto famílias acumulam dívida e negócios deixam de operar. Revisões de programas em países em desenvolvimento mostram resultados heterogêneos. Treinamentos costumam melhorar conhecimento e práticas; efeitos sobre vendas, lucro e emprego são menores, variam por desenho e nem sempre aparecem no período observado. Isso não significa que cursos sejam inúteis. Significa que conteúdo, seleção, mentoria, acesso a mercado e contexto explicam parte do efeito. Pesquisa de satisfação mede experiência; intenção de empreender mede expectativa; nenhuma das duas substitui renda líquida ou sobrevivência. O artigo relacionado Empreendedorismo resolve desemprego e pobreza? aprofunda a evidência geral. Esta análise concentra-se na arquitetura dos clubes. Crédito funciona quando financia um investimento com retorno esperado suficiente para pagar principal e juros. Se o problema é ausência de demanda, emprestar mais não cria cliente. Se a pessoa mistura despesas familiares e empresariais, a dívida pode ampliar vulnerabilidade.
Decisão

O banco precisaria definir antes de emprestar

  • Operador: banco novo, instituição existente, fintech credenciada ou fundo garantidor.
  • Capital: orçamento público, depósitos, captação externa ou parceria privada.
  • Juros e subsídio: taxa ao tomador, custo fiscal e duração.
  • Seleção: viabilidade do plano sem excluir quem não possui garantia tradicional.
  • Orientação: acompanhamento real, não venda casada de curso ou produto.
  • Inadimplência: renegociação, provisão, cobrança e proteção contra superendividamento.
  • Integridade: critérios públicos para impedir favoritismo político ou religioso.
  • Dados: consentimento, sigilo bancário, avaliação independente e publicação agregada.
Captar recursos externos com proteção cambial, como Cury também sugeriu, não elimina custo. Alguém paga o seguro contra variação do dólar. A proposta precisa informar quem assume esse risco. Sebrae oferece capacitação e orientação; Sistema S e redes públicas oferecem educação profissional; Pronampe e fundos garantidores apoiam crédito; programas de microcrédito produtivo combinam financiamento e orientação; incubadoras atendem negócios selecionados. O possível diferencial seria uma rede comunitária nacional integrada, com acompanhamento e acesso coordenado a mercado e crédito. Para não duplicar estruturas, cada território deveria mapear oferta existente e comprar ou articular serviços antes de abrir uma nova unidade. “Clube” também sugere comunidade contínua, diferente de curso pontual. Essa característica pode ser valiosa se houver mentoria qualificada e governança; pode virar apenas um espaço de palestras se não houver método. Usar prédios existentes reduz custo, mas cria obrigações. Em escola pública, conteúdo deve respeitar currículo, proteção de adolescentes, contratação regular e finalidade educacional. Empreendedorismo não pode substituir formação geral nem estimular trabalho infantil. Igrejas podem oferecer capilaridade e confiança local. Dinheiro público, porém, exige laicidade, acesso sem discriminação, ausência de proselitismo, seleção transparente, prestação de contas e alternativas equivalentes para quem não participa da religião anfitriã. Organizações comunitárias devem participar do diagnóstico e controle, não apenas ceder espaço. Parceiros não podem direcionar crédito a aliados, vender produtos aos alunos ou apropriar-se de dados e contatos. Automação pode eliminar tarefas e ocupações, criar outras e reorganizar profissões. O tamanho e o ritmo são incertos. Converter uma previsão de “dezenas de milhões de desempregados” em meta de microempresas exige demonstrar quais trabalhadores seriam deslocados, quais mercados poderiam atendê-los e por que autoemprego seria a melhor resposta. Empreendedores também usam tecnologia e também podem ser substituídos por ela. A política mais robusta combina qualificação técnica, proteção na transição, emprego produtivo, inovação empresarial e empreendedorismo — sem apostar tudo num único destino ocupacional.
Sequência

Da matrícula ao impacto

Uma fase piloto em territórios variados seria mais informativa que abrir 10 mil unidades de uma vez. Escala deveria seguir evidência de renda e sobrevivência, não antecipá-la. Os clubes podem ser úteis quando combinam formação prática, mentoria, rede, tecnologia, teste de demanda e acesso responsável a capital. A proposta acerta ao reconhecer que conhecimento e crédito são barreiras reais. Erra se tratar treinamento como fábrica automática de empresários. Antes de virar política nacional, Cury precisa responder: qual currículo; quem certifica instrutores; quanto custa cada participante; quem opera o banco; qual taxa e subsídio; como selecionar projetos; quem cobre inadimplência; como preservar laicidade; que programas serão integrados; e qual resultado encerraria uma unidade ineficaz. A meta relevante não é quantas pessoas receberam um diploma de empreendedor. É quantas melhoraram renda líquida de forma sustentável, sem dívida excessiva, e quanto desse resultado não teria ocorrido sem o programa.
  • 9 de agosto de 2026: publicação inicial; formulações sobre 10 mil clubes, 10 milhões de microempreendedores e Banco do Empreendedor verificadas. Não foram localizados orçamento, currículo ou desenho institucional completo.
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