Henrique Reis
4 de setembro de 202622 min

Além-do-homem em Nietzsche: o que significa Übermensch — e o que ele não significa

Übermensch não é raça superior nem personagem com superpoderes: é uma figura disputada de autossuperação e criação de valores apresentada em Assim Falou Zaratustra.
Nota de estudoFriedrich NietzscheAlém-do-homemÜbermensch
Retrato de perfil de Friedrich Nietzsche fotografado em 1882

Revisado em 4 de setembro de 2026.

Übermensch não significa uma raça biologicamente superior nem um indivíduo com superpoderes. É uma figura literário-filosófica de Assim Falou Zaratustra ligada à autossuperação e à criação de valores depois da morte de Deus. Seu sentido não é fechado: intérpretes discutem se nomeia um ideal, um tipo humano, um horizonte cultural ou uma provocação dramática. Traduzir como “super-homem” tornou o termo familiar, mas cria dois ruídos: parece indicar um homem do sexo masculino acima dos demais e aproxima o conceito do herói da cultura pop. Mensch significa ser humano; über pode indicar sobre, acima ou além. Por isso “além-do-homem” é uma escolha útil, não uma solução perfeita.
Resumo

Antes de interpretar o Übermensch

O prefixo über admite “sobre”, “acima”, “através” ou “além”; Mensch designa o humano, não especificamente o homem masculino. As traduções carregam decisões:
TraduçãoVantagemProblema
Além-do-homemDestaca ultrapassagem e evita o herói de quadrinhosPode sugerir abandono completo da humanidade
Sobre-homemMantém a ideia de posição e superaçãoSoa pouco natural em português
Super-homemÉ tradicional e reconhecívelEvoca poderes, masculinidade e superioridade simples
Manter Übermensch em alguns contextos preserva a ambiguidade, mas não explica o conceito. O sentido precisa vir das cenas e contrastes de Zaratustra.
Definição
Além-do-homem

Figura de autossuperação e criação de valores anunciada por Zaratustra como horizonte para um humano que não procura fundamento num além metafísico. Pode ser lida como ideal, tipo, símbolo ou tarefa; Nietzsche não oferece uma definição sistemática única.

Ele domina o prólogo e alguns discursos de Assim Falou Zaratustra. Zaratustra desce da montanha para anunciar seu ensinamento, mas fala a uma multidão que prefere o “último homem”. A forma importa: há narrador, personagem, ironia, fracasso pedagógico, imagens bíblicas e mudanças de voz. Nietzsche não fala sempre diretamente por Zaratustra. Ler cada discurso como proposição doutrinária elimina a dimensão literária e as tensões internas da obra.
Capa da primeira edição da primeira parte de Assim Falou Zaratustra, de 1883

Assim Falou Zaratustra

Friedrich Nietzsche

1883FilosofiaCompanhia de Bolso

O prólogo apresenta além-do-homem, corda, travessia e último homem dentro de uma cena em que o público não compreende Zaratustra. A forma dramática faz parte do argumento.

A frase não ordena exterminar seres humanos nem escapar do corpo. “Homem”, aqui, é uma forma ainda inacabada de valorar. Zaratustra descreve o humano como corda entre animal e além-do-homem: perigosa travessia, não destino biológico garantido. Superar significa transformar hábitos, afetos, ideais e maneiras de atribuir valor. A figura não recebe uma lista de competências. Ela impede que a humanidade presente seja tomada como medida final de todas as possibilidades. Nietzsche leu debates evolucionários do século XIX e criticou interpretações de luta pela existência centradas apenas em conservação e adaptação. Nada disso torna o Übermensch uma espécie futura produzida por seleção natural. Zaratustra fala em criação de valores e superação, não fornece hereditariedade, população, mecanismo seletivo ou programa reprodutivo. Transumanismo tecnológico e eugenia são apropriações posteriores que precisam ser argumentadas; não equivalem ao texto. Depois que valores transcendentes perdem autoridade, duas respostas aparecem: resignar-se ao vazio ou criar. O além-do-homem representa o horizonte afirmativo de alguém capaz de dar sentido à Terra sem recorrer a um mundo verdadeiro acima dela. “Criar valores” não é escolher preferências aleatórias. Envolve dar forma a uma vida, ordenar afetos, suportar responsabilidade e produzir critérios. O problema crítico permanece: Nietzsche não oferece procedimento público capaz de distinguir toda criação fecunda de uma imposição cruel. Quando Zaratustra apresenta o além-do-homem, a multidão pede o último homem. Ele evita riscos, busca saúde e conforto, declara ter inventado a felicidade e pisca satisfeito. É a figura de uma humanidade que aboliu grandes conflitos ao preço de não desejar superar-se. Isso não é propaganda de trabalho exaustivo. Hustle culture pode ser tão conformista quanto o repouso que despreza: repete métricas de mercado, busca aprovação e transforma exaustão em status. A crítica do último homem mira o nivelamento das possibilidades, não férias, segurança material ou cuidado com a saúde. Selbstüberwindung indica que uma forma de vida supera suas próprias organizações e valores. O “si” nietzschiano não é uma substância fixa, mas uma pluralidade de impulsos capaz de ganhar novas hierarquias. Por isso “seja melhor que todos” é uma tradução empobrecida. Comparação externa pode conservar dependência do olhar alheio. Autossuperação exige que a configuração que avaliava também seja transformada. Nietzsche usa vontade de poder para pensar comando e obediência, interpretação, crescimento, incorporação de resistência e organização de forças. Alguns intérpretes a tratam como hipótese psicológica; outros, como descrição mais ampla da vida; leituras metafísicas dependem bastante dos fragmentos póstumos. Dominação interpessoal é uma possível manifestação, não a definição completa. Associar o além-do-homem ao tirano que impõe desejos ignora autocontrole, criação e superação de si. Ao mesmo tempo, não se deve higienizar o vocabulário de poder e hierarquia como se ele fosse apenas terapêutico. Nietzsche não identifica uma figura histórica como realização inequívoca do Übermensch. Em Zaratustra, ele funciona no futuro e no anúncio. Há pelo menos quatro famílias de leitura:
  • ideal regulador: orienta transformação sem precisar ser plenamente realizado;
  • tipo superior: descreve raras configurações humanas de grande realização;
  • horizonte cultural: indica outra forma de produzir valores após o niilismo;
  • figura literária: provoca e desestabiliza mais do que define um programa.
As leituras podem se combinar, mas não devem ser apresentadas como consenso. Não uma teoria racial sistemática do Übermensch. O conceito não designa raça ariana, herança biológica ou Estado eugênico. Nietzsche atacou nacionalismo alemão, antissemitismo e culto ao Estado. Isso não o torna igualitário. Ele escreveu em favor de hierarquias, “tipos superiores”, distância social e cultivo de exceções; fez generalizações sobre povos, sexos e culturas que são problemáticas. Separar Übermensch de raça não exige apagar seu aristocratismo. Nietzsche morreu em 1900, antes da fundação do Partido Nazista. Sua irmã, Elisabeth Förster-Nietzsche, era nacionalista e antissemita, controlou o arquivo e ajudou a construir uma recepção compatível com sua política. A Vontade de Poder, montada postumamente, favoreceu a imagem de uma doutrina final que Nietzsche não organizou. Nazistas exploraram vocabulário de força, hierarquia e criação. Também precisaram neutralizar o antinacionalismo, o desprezo de Nietzsche pelo antissemitismo e sua hostilidade ao Estado de massas. Portanto:
Comparação

Duas simplificações históricas

Ele não segue uma moral altruísta universal, mas “egoísmo” também é insuficiente. Criar exige linguagem, cultura, mestres, adversários e obras que sobrevivem ao indivíduo. A excelência nietzschiana é relacional, ainda que não se organize pela igualdade. O problema ético permanece: se outros aparecem apenas como meios para o cultivo superior, a autossuperação pode legitimar exploração. O texto não oferece uma teoria satisfatória de reciprocidade para resolver essa objeção. É plausível aproximar a figura daquele que suportaria afirmar o eterno retorno da mesma vida. Ambos confrontam o niilismo e exigem um “sim” sem redenção transcendente. Mas Zaratustra não apresenta uma equação simples segundo a qual passar num teste produz o Übermensch. Essa conexão é interpretativa. O futuro artigo sobre eterno retorno poderá distinguir hipótese cosmológica, experimento existencial e estrutura narrativa. Amor fati nomeia a aspiração de amar o necessário, não apenas tolerá-lo. O além-do-homem pode ser lido como figura capaz dessa afirmação. Ainda assim, amor fati aparece explicitamente em A Gaia Ciência e Ecce Homo, enquanto o Übermensch pertence sobretudo ao mundo dramático de Zaratustra. A morte de Deus abre a crise; o niilismo nomeia a desvalorização; o artigo Nietzsche era niilista? examina a travessia. O além-do-homem ocupa o horizonte positivo dessa sequência, mas não entrega uma constituição dos novos valores.
  • Superman: a semelhança lexical induz uma associação, mas poderes físicos e heroísmo moral não definem o conceito.
  • Autoajuda: transforma autossuperação numa rotina individual de desempenho.
  • “Sigma male”: reduz criação a pose masculina, isolamento e competição por status.
  • Empreendedorismo: confunde valor econômico e sucesso de mercado com criação de valores.
  • Supremacismo: converte hierarquia espiritual ou cultural em raça e programa político.
Esses usos podem ser objetos de história da recepção. Não são provas do que Nietzsche escreveu. O além-do-homem concentra dificuldades reais. Se novos valores não respondem a um fundamento universal, o que impede arbitrariedade? Se excelência exige hierarquia, quem suporta seus custos? É possível separar autossuperação de elitismo quando Nietzsche rejeita igualdade moral? Uma criação que destrói outros ainda seria afirmativa? Uma leitura responde com critérios de integração, fecundidade, potência criadora e capacidade de afirmar a vida. Outra considera esses critérios vagos ou politicamente perigosos. Nietzsche oferece uma provocação poderosa contra valores herdados, mas não um procedimento público suficiente para legitimar toda transvaloração. O além-do-homem não é espécie superior, super-herói ou autorização para dominar. É uma figura disputada que põe o humano presente em movimento: depois da perda dos fundamentos, seria possível criar e afirmar sem voltar ao além metafísico? Essa pergunta só permanece intelectualmente séria quando acompanhada de suas dificuldades. Autossuperação não apaga elitismo; rejeitar a leitura nazista não absolve toda hierarquia; reconhecer a forma literária não torna o conceito vazio. Pensar o Übermensch é manter essas tensões abertas. Comece pelo prólogo de Assim Falou Zaratustra e continue pelos discursos “Das três metamorfoses”, “Da superação de si” e pelas passagens do eterno retorno. Leia depois a autointerpretação de Ecce Homo com cautela. As entradas biográfica, geral e moral da Stanford Encyclopedia of Philosophy ajudam a situar aristocratismo, recepção e controvérsias.
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